Exceção

Bem pouco tempo, mas eu quero escrever:
digo, recentemente, nem consigo descrever.
Eu não parei pra ler,
paguei pra ver.
O que vamos ter?
E agora, o que vamos ser?
É só sorriso, empolgação?
Uma curta reflexão…
Relativiza o tempo,
a mudança do vento.
E tanto sofrimento?
Ah, isso era em outro momento.
Não tenho flores,
trago textos vivos em cores.
Cansei de falar das dores,
tempos de novos amores.
Então me erra,
não quero ver a vida da janela.
Aquele velho ciclo se encerra.
Tanto tempo esperei por ela.
Rimas tortas,
linhas mortas?
Me livrei daquela fossa,
tava foda,
era tipo fratura exposta,
chegou com nova proposta.
Mesa posta,
ou mesma bosta?
Vontades, mesmo que impostas,
passei meu braço nas costas.
O Theatro, o viaduto.
Um segundo, um impulso,
sangue corre pelo pulso.
Para, eu não to mais puto.
Eu também mudo,
e as vezes fico mudo.
Mas esse silêncio não incomoda,
completa em nós a nova moda.
Seja tão cedo ou empolgação,
eu só escrevo porque você me trouxe de volta o que faltava de inspiração

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Fossa das Marianas

E profundo foi…

…direto pro fundo,
no mar gelado, no mundo.
As promessas, os momentos,
reféns de tempos e ventos.
A amizade que começa,
a mente estressa.
O laço cortado,
o vidro quebrado,
o abraço não dado.
Conhecer e viver no momento errado.
Não quero perdão,
nem ter razão,
muito menos explicação,
ou mentiras sinceras de coração.
No meio do oceano,
o jogo profano.
Se foi sem fim
e morreu pra mim.

… hoje, só quero ser.

A última carta.

Já é novembro…
… o ano passou depressa, as pessoas também.
Chegaram, se foram, voltaram, ficaram.
Não sei qual ou quem, mas as lembranças são rostos e momentos.
Superficialidade, naturalidade, intensidade.
Momentos e resumos que eu ainda guardo em mim.
Trocar a certeza pelo incerto.
E tudo se resume ao que aconteceu durante esse período enfermo.
A insônia, tantas noites em claro.
Eu dormia de olhos abertos ou tudo aquilo foi um sonho acordado?
Você saberia dizer?
Eu sabia explicar?
Você e sua vida,
eu e minha disritmia…
Lembrei de você enquanto fumava um cigarro,
você lembrou de mim enquanto ouvia nossa música.
Eu finjo que não vejo, eu finjo que esqueço.
Olho meu porta-retrato. Nosso porta-retrato.
Anos e anos de histórias e memórias,
resumidos numa paisagem cinza.
Eu olho a vista da sacada e procuro um ponto de referência.
Ou algo que lembre (ou me faça esquecer) sua existência.
Talvez seja melhor me jogar,
tanto no sentido figurado, quanto real.
Enfim, estou bem,
é só mais uma invenção, um beijo e adeus,
estou de partida.

Aviões

Onde mais ficar?
Já não sei o meu lugar.
Um refúgio, longe do mar…
… e as lembranças que vão passar.
Te vi andar na pista, eu sei,
e quase te parei.
Já não sei onde errei,
entáo, nem por onde comecei.
E que eu possa dizer,
espero o próximo trem,
pra me encontrar com você,
pra perguntar “tudo bem?”
E aquela noite foi além,
não explico pra ninguém.
A última história, então,
a busca de quem tem ou não razão.
E da passagem,
a barragem,
o comando,
fui entrando.
Se o meu lugar é onde eu quero estar,
vou te esperar.

E as vezes a história
fugiu da memória.
Foi obra do acaso,
morte por descaso?
Nas paredes, facas,
no banco, as marcas.
Na paisagem, a vista,
a lembrança, mista.

Pego a próxima passagem,
não vou perder a viagem.
Onde vamos nos encontrar?
É lá que eu vou te buscar.
Na saída, ou no terminal,
esperando o final.
Se o seu mundo é onde quero estar,
vou te esperar.

Volume morto (ou antes da tempestade)

O resto ou o que sobrou.
O que se tem, tirando o que já se aproveitou.
Uma bagunça, mar de confusão:
se aplica assim em mim a melhor definição.
Reaproveitando o erro em meio ao enredo,
que me faz vítima do medo,
ou de um próprio receio,
não sei a que veio,
refém do tempo e do vento,
preso no mesmo momento.
Que se acabou ou foi embora,
fui trancado, jogada a chave fora.
Vítima do comportamento,
errático desde o nascimento.
O pavor do novo, da mudança,
um novo caminho ou andança.
A tempestade não chegou,
mas o árido secou.
Acabou com o que foi amor.
Era carinho, hoje é rancor.
Enlameado, sujo,
eu não me escondo ou fujo.
Admito, errado sem estar,
mas não faz sentido mudar.
Reaproveito o que me faz desandar,
colcha de retalhos indesejável a se formar.
Um quebra cabeça de peça torta,
a vida, o sonho que se foi pela porta…
… da frente ou dos fundos,
separaram-se os mundos.
Fez-se mar,
não tem parque, natureza ou luar.
Ficou o momento raro, lembrança dentro do carro.
Momento que, de ternura, virou escarro.
Reaproveito o que existe dentro de mim,
que de erro em erro, prefiro assim.

Sobre Nyx e Érebo

Rabiscando o caderno,
desenhando um rascunho de palavras,
desvendando teus sinais,
procurando uma entrada.
E, então, ela disse assim pra mim:
“Como pode ser alguém tão errado, enfim?
Você traduz em palavras tudo aquilo que eu sinto,
lendo teus versos, eu finjo que acredito.
Passei a vida procurando alguém que pudesse me entender…
Queria ser como você,
eu quero estar com você!”.
E o vento levou.
Palavras só trouxeram dor,
fizeram amargar o que passou,
escorreram em lágrimas de rancor.
(… e a noite era fria, era madrugada.
Ela encantava a todos rodando a sua saia rodada,
só queria dançar,
pensou em se divertir, até fingiu nem notar
o rapaz de passos trôpegos,
falando alto, já quase sem fôlego,
e que nem tentou impressionar.
Ele olhava no relógio, pensando:
“Que horas a festa vai acabar?”).
Lateja a têmpora devido a insônia,
ou seria devido a ressaca?
Retórica incômoda!
Sabendo a resposta, pegou um copo d’água,
e aquela sensação amarga…
Quando o álcool não fizer mais efeito,
qual vai ser sua solução?
Qual a nova droga pra acalmar seu coração,
ou pra te proteger da solidão?
(… e a noite terminou com ele sozinho no quarto,
relembrando o sorriso dela, caricaturando seu retrato,
platonizando como seria se os dois fossem namorados.
Ela chegou em casa sem se importar,
tirou a roupa, a maquiagem, e foi se deitar.
Ao menos, tinha o travesseiro pra abraçar).
De quando em quando, ainda tenho saudade dos planos,
das ideias conjuntas ao longo do anos,
procurando em cada entrelinha onde a gente se perdeu.
Teorizando se o cara entre os parênteses realmente fosse eu.

Ponto final

O show vai terminar…

Se encerra assim uma sessão da vida,
uma passagem nem sempre exige uma despedida.
Capacidade de versar a poesia implícita num copo d’água,
começo assim a disparar minha metralhadora cheia de mágoa.
Repressão, discriminação infantil:
todas aquelas frescuras que um dia eu mandei pra puta que pariu.
Menino rápido, sagaz, versado:
reflexos de quem um dia se empenhou no aprendizado.
Faz da vida uma obra de arte,
ganhando experiência do todo que juntou em cada parte.
Ao ataque, na night,
fazendo das palavras sua munição para o combate.
Com relacionamentos construídos em cima da falsidade,
o que era pra ser completo e não foi nem a metade.
As amizades, verdadeiras.
Fazendo das melhores intenções sempre as primeiras.
Passeio aqui, andando pra lá,
um maço de cigarros no bolso, e quem poderia me parar?
O caminho que ligava as ruas, a favela.
Como aprender a cultura da rua se você nem anda por ela?
Essa é minha vida, não é um filme,
não preciso da sua compaixão ou de alguém que me anime.
Felicidade? Verdade!
Encontrei Deus me protegendo em cada canto da cidade.
Popularidade, fama, status pop?
Falei o que pensava e nunca liguei se daria ibope.
O que quer que aconteça, irmão, abra o seu coração.
E, puxando o gatilho da arma na minha boca, eu termino a minha sessão.