Ego (uma carta para mim mesmo)

Caro Pedro,

Como você sempre teve muita dificuldade de falar diretamente de você mesmo, hoje eu vim falar de você, por você. Porque eu sei muita coisa que tem se passado pela sua cabeça e acontecido na sua vida.

Você é a pessoa mais antagônica que eu conheço: uma cabeça racional, numérica, fria, mas um coração extremamente emocional, irracional. A dualidade em pessoa.

Você sabe que sua vida mudou muito em julho de 2012, né? Talvez nem tudo tenha mudado, mas aquele fim de julho foi uma data que mudou sua vida pra sempre. Não que isso justifique todos os acontecimentos posteriores, mas mudou sua vida.

Você sempre dificuldade de aceitar seus próprios erros. De conviver com as falhas. Você sempre se cobrou muito em acertar e ser exato. E isso fez você ter dificuldade de cortar laços com o passado. Você deixou muito de você e muito dessa sua cobrança em cada erro. Não pra revisitar os sentimentos, mas pra tentar fechar os pontos e corrigir isso. E você precisa aprender a fechar as portas do passado pra seguir em frente. Você aprendeu com aquilo, mas já se foi. Esqueça.

Você nunca foi uma pessoa egoísta, sempre tentou ser altruísta, pensar no bem-estar de todos, e se culpou por cada vez que acabou decepcionando as pessoas. Não que você precisasse provar nada pra ninguém, mas eu te conheço, você não gosta de ver sofrimento. Você já sofreu e sabe o quanto isso é ruim.

Mas você se perdeu algumas vezes. Eu sei o que tem se passado na sua cabeça nos últimos meses. A falta de foco, de objetivos novos, então você se sente perdido. Você deixou seu ego ganhar da sua racionalidade e se perdeu. Achou que tinha controle sobre todos os aspectos da sua vida e entrou numa crise pessoal.

Você sabe que, apesar dos sorrisos fáceis e do jeito debochado, quase arrogante, mas extrovertido e alegre, você tem seus momentos de crise. Você é fechado sobre si mesmo. E você, principalmente depois daquele julho de 2012, procurou fechar mais ainda seus sentimentos e mostrar uma face diferente. Mesmo que isso impactasse seus relacionamentos, sua melhor armadura era essa, era seu escudo pra não se machucar mais. E todas as vezes que você baixou a guarda, você aprendeu que o escudo deveria ser maior, mais forte, mais firme.

Pedro, o que eu tô te escrevendo aqui é pra você lembrar todos os dias da sua vida. Em cada dúvida, em cada crise. Você nunca pensou em se matar, você sabe disso. Mas você já questionou o motivo da sua existência muitas vezes. Você já questionou o porquê de estar vivo e errar, decepcionar. Se permita errar. E use o que você aprendeu no budismo, de buscar a origem do sofrimento, e no cristianismo, colocando suas dúvidas e seus anseios nas mãos de Deus. Você não pode resolver tudo no mundo.

Cara, essa carta é pra você nunca se esquecer de quem você é, do que te fez chegar aos 26 anos. Do que te fez crescer, atingir objetivos e se orgulhar de ser você mesmo. Nunca esqueça de quem você é. Corrija seus erros, deixe seu passado pra trás. E sempre lembre de quem você é. A única coisa do seu passado que você não pode deixar, que você tem que se lembrar sempre: julho de 2012.

Pedro.

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Exceção

Bem pouco tempo, mas eu quero escrever:
digo, recentemente, nem consigo descrever.
Eu não parei pra ler,
paguei pra ver.
O que vamos ter?
E agora, o que vamos ser?
É só sorriso, empolgação?
Uma curta reflexão…
Relativiza o tempo,
a mudança do vento.
E tanto sofrimento?
Ah, isso era em outro momento.
Não tenho flores,
trago textos vivos em cores.
Cansei de falar das dores,
tempos de novos amores.
Então me erra,
não quero ver a vida da janela.
Aquele velho ciclo se encerra.
Tanto tempo esperei por ela.
Rimas tortas,
linhas mortas?
Me livrei daquela fossa,
tava foda,
era tipo fratura exposta,
chegou com nova proposta.
Mesa posta,
ou mesma bosta?
Vontades, mesmo que impostas,
passei meu braço nas costas.
O Theatro, o viaduto.
Um segundo, um impulso,
sangue corre pelo pulso.
Para, eu não to mais puto.
Eu também mudo,
e as vezes fico mudo.
Mas esse silêncio não incomoda,
completa em nós a nova moda.
Seja tão cedo ou empolgação,
eu só escrevo porque você me trouxe de volta o que faltava de inspiração

Fossa das Marianas

E profundo foi…

…direto pro fundo,
no mar gelado, no mundo.
As promessas, os momentos,
reféns de tempos e ventos.
A amizade que começa,
a mente estressa.
O laço cortado,
o vidro quebrado,
o abraço não dado.
Conhecer e viver no momento errado.
Não quero perdão,
nem ter razão,
muito menos explicação,
ou mentiras sinceras de coração.
No meio do oceano,
o jogo profano.
Se foi sem fim
e morreu pra mim.

… hoje, só quero ser.

A última carta.

Já é novembro…
… o ano passou depressa, as pessoas também.
Chegaram, se foram, voltaram, ficaram.
Não sei qual ou quem, mas as lembranças são rostos e momentos.
Superficialidade, naturalidade, intensidade.
Momentos e resumos que eu ainda guardo em mim.
Trocar a certeza pelo incerto.
E tudo se resume ao que aconteceu durante esse período enfermo.
A insônia, tantas noites em claro.
Eu dormia de olhos abertos ou tudo aquilo foi um sonho acordado?
Você saberia dizer?
Eu sabia explicar?
Você e sua vida,
eu e minha disritmia…
Lembrei de você enquanto fumava um cigarro,
você lembrou de mim enquanto ouvia nossa música.
Eu finjo que não vejo, eu finjo que esqueço.
Olho meu porta-retrato. Nosso porta-retrato.
Anos e anos de histórias e memórias,
resumidos numa paisagem cinza.
Eu olho a vista da sacada e procuro um ponto de referência.
Ou algo que lembre (ou me faça esquecer) sua existência.
Talvez seja melhor me jogar,
tanto no sentido figurado, quanto real.
Enfim, estou bem,
é só mais uma invenção, um beijo e adeus,
estou de partida.

Aviões

Onde mais ficar?
Já não sei o meu lugar.
Um refúgio, longe do mar…
… e as lembranças que vão passar.
Te vi andar na pista, eu sei,
e quase te parei.
Já não sei onde errei,
entáo, nem por onde comecei.
E que eu possa dizer,
espero o próximo trem,
pra me encontrar com você,
pra perguntar “tudo bem?”
E aquela noite foi além,
não explico pra ninguém.
A última história, então,
a busca de quem tem ou não razão.
E da passagem,
a barragem,
o comando,
fui entrando.
Se o meu lugar é onde eu quero estar,
vou te esperar.

E as vezes a história
fugiu da memória.
Foi obra do acaso,
morte por descaso?
Nas paredes, facas,
no banco, as marcas.
Na paisagem, a vista,
a lembrança, mista.

Pego a próxima passagem,
não vou perder a viagem.
Onde vamos nos encontrar?
É lá que eu vou te buscar.
Na saída, ou no terminal,
esperando o final.
Se o seu mundo é onde quero estar,
vou te esperar.

Volume morto (ou antes da tempestade)

O resto ou o que sobrou.
O que se tem, tirando o que já se aproveitou.
Uma bagunça, mar de confusão:
se aplica assim em mim a melhor definição.
Reaproveitando o erro em meio ao enredo,
que me faz vítima do medo,
ou de um próprio receio,
não sei a que veio,
refém do tempo e do vento,
preso no mesmo momento.
Que se acabou ou foi embora,
fui trancado, jogada a chave fora.
Vítima do comportamento,
errático desde o nascimento.
O pavor do novo, da mudança,
um novo caminho ou andança.
A tempestade não chegou,
mas o árido secou.
Acabou com o que foi amor.
Era carinho, hoje é rancor.
Enlameado, sujo,
eu não me escondo ou fujo.
Admito, errado sem estar,
mas não faz sentido mudar.
Reaproveito o que me faz desandar,
colcha de retalhos indesejável a se formar.
Um quebra cabeça de peça torta,
a vida, o sonho que se foi pela porta…
… da frente ou dos fundos,
separaram-se os mundos.
Fez-se mar,
não tem parque, natureza ou luar.
Ficou o momento raro, lembrança dentro do carro.
Momento que, de ternura, virou escarro.
Reaproveito o que existe dentro de mim,
que de erro em erro, prefiro assim.

Sobre Nyx e Érebo

Rabiscando o caderno,
desenhando um rascunho de palavras,
desvendando teus sinais,
procurando uma entrada.
E, então, ela disse assim pra mim:
“Como pode ser alguém tão errado, enfim?
Você traduz em palavras tudo aquilo que eu sinto,
lendo teus versos, eu finjo que acredito.
Passei a vida procurando alguém que pudesse me entender…
Queria ser como você,
eu quero estar com você!”.
E o vento levou.
Palavras só trouxeram dor,
fizeram amargar o que passou,
escorreram em lágrimas de rancor.
(… e a noite era fria, era madrugada.
Ela encantava a todos rodando a sua saia rodada,
só queria dançar,
pensou em se divertir, até fingiu nem notar
o rapaz de passos trôpegos,
falando alto, já quase sem fôlego,
e que nem tentou impressionar.
Ele olhava no relógio, pensando:
“Que horas a festa vai acabar?”).
Lateja a têmpora devido a insônia,
ou seria devido a ressaca?
Retórica incômoda!
Sabendo a resposta, pegou um copo d’água,
e aquela sensação amarga…
Quando o álcool não fizer mais efeito,
qual vai ser sua solução?
Qual a nova droga pra acalmar seu coração,
ou pra te proteger da solidão?
(… e a noite terminou com ele sozinho no quarto,
relembrando o sorriso dela, caricaturando seu retrato,
platonizando como seria se os dois fossem namorados.
Ela chegou em casa sem se importar,
tirou a roupa, a maquiagem, e foi se deitar.
Ao menos, tinha o travesseiro pra abraçar).
De quando em quando, ainda tenho saudade dos planos,
das ideias conjuntas ao longo do anos,
procurando em cada entrelinha onde a gente se perdeu.
Teorizando se o cara entre os parênteses realmente fosse eu.